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domingo, 10 de maio de 2015

Livros Que Odiei #1: Crepúsculo



Para começar a minha série Livros Que Odiei, onde desabafarei sobre os acessos de raiva que senti enquanto fazia leituras, que longe de serem tendenciosas, foram feitas nas melhores das intenções e no fim das contas recebi a ingratidão de um enredo que só me fez querer o meu sofrido dinheirinho de volta, em uma tentativa de ser esperta e sensacionalista, detalharei minhas impressões sobre Crepúsculo.

Eu devo estar, pelo menos, 10 anos atrasada na leitura desse livro. A princípio eu resistia à saga, até porque eu estava mais ou menos por dentro da rivalidade que existia entre fãs de Harry Potter e de Crepúsculo e, obviamente, eu levantei a bandeira e fiz parte dos haters de Twilight, mas acabou que com o tempo eu não ligava mais e, recentemente, dei-me conta de que eu sequer havia entrado em contato com o livro e a opinião que tinha sobre era baseada nos filmes.

Corrigindo o parágrafo acima, na verdade eu tive sim um contato com o primeiro livro, só que eu ainda estava contaminada pelo ódio gratuito do momento e acabei largando, contente por não ter me deixado seduzir pelos "encantos" de Edward. Mas agora, em 2015, livre de preconceitos e de uma leitura tendenciosa, peguei o primeiro da saga do meu box econômico e dei início aos trabalhos.

Juro que fui bem intencionada dessa vez. Posso até dizer que estava louca para acabar gostando da série e, quem sabe, fazer a linha do contra quando o livro fosse mencionado em rodas de conversa, até porque adoro ser oposição em situações assim, mas foi impossível de acontecer.

Nos primeiros momentos, nada de errado. Bella estava mudando de cidade contra sua vontade, indo morar com um pai que não tinha muita intimidade, estava bem desinteressada no que a cidade chuvosa tinha a lhe proporcionar, sempre se lembrando do lugar ensolarado em que vivia... Cara, super normal! Quantos adolescentes (e nem precisa pensar em adolescentes, mas quantas pessoas) não ficariam fazendo "birra" por ir pra um lugar que sequer escolheu? Ponto positivo, já deu pra criar uma empatia com a Bella, tadinha, porque é um saco, não é mesmo? Sair do seu lugar, da cidade que você gosta, pra ir pra outra. Nossa, ok. "Ótimo, isso vai ser bom", foi o que pensei.

Não tenho como negar que a narrativa de Stephenie é bastante fluida. Ela funciona a partir do momento em que não é preciso fazer muito esforço para criar a imagem mental do que está sendo narrado - ou eu tive essa facilidade por ter assistido ao filme? Fica aí a dúvida -, então acho que o problema não está na escrita em si da autora, mas nas escolhas de enredo que ela fez.

Para começar, a própria Bella se demonstra como uma personagem bastante morninha. Não é a mais inteligente, a mais carismática, a mais bonita, nem a mais engraçada... Ela não é a mais nada. A mais branca talvez ou a mais descoordenada, mas eis aí um bom motivo para não passar despercebida nunca? Alguém, pelo amor dos deuses, consegue me explicar de onde que veio o interesse de todos os personagens masculinos por ela? E não paramos aí nas péssimas escolhas de enredo.

Longe de querer desmerecer a senhora Stephenie Meyer e sua formação acadêmica, mas a partir do momento em que soube que ela não é uma leiga qualquer, elevei meu grau de cobrança de sua composição e esperei mais, bem mais de aspectos, vamos colocar assim, técnicos de suas personagens. A família de vampiros lá, por exemplo, são descritos por Bella - e pelo que pude entender, é consenso de todos os seus colegas de escola, se não da cidade inteira - como extremamente belos. Ótimo, o problema não mora aí, até porque parece que esse é um pré-requisito quando se é um vampiro: ser bonito (excetuando-se, talvez, ao vampiro vilãozinho que aparece no final do livro, que eu achei quase infantil colocá-lo como não-atraente apenas para criarmos repulsa por ele, como que se não fosse repulsivo o bastante ele ser cruel sem bons motivos).

Minha preguiça de buscar a página exata da descrição dos vampiros maravilhosos vai deixar um quê duvidoso do que estou falando, mas me lembro com certa clareza de Bella justificar tamanha beleza pelos seus traços finos e europeus. O problema não é ser bonito por obter traços finos e europeus, mas a impressão que fica é que são bonitos exatamente por serem dessa forma, brancos. Não me venham com desculpas esfarrapadas, de que vampiros estão mortos, logo, eles são pálidos. Quer dizer então que um vampiro negro, automaticamente, terá seus traços afinados para ficarem bonitos e atraentes, já que pessoas só são bonitas e atraentes se forem assim? Achei mancada, mas ainda assim, tentei deixar passar.

Ah, o amor! Bom, já dizia Dona Clotilde na Festa da Boa Vizinhança, "eu amo, tu amas...". Pois bem, Bella também ama. E ama rápido, né? Nossa, fiquei chocada. Sem julgamentos, até porque assim como o amor não tem idade, eu acredito que o amor não tem prazos também. Podemos nos apaixonar de um dia para o outro, de uma hora para outra... O problema não é esse, mas é como que ela parece usar o seu amor, claramente arrebatador, como argumento para se anular como ser humano e se diminuir ante um machista, que parece ser perdoado pelo seu comportamento abusivo por ser bonito e rico.

Confesso que por um momento esperei que a autora usasse isso como um tema a ser explorado, que, mais cedo ou mais tarde, Bella percebesse a forma que é tratada, que se questionasse e acabasse por se dar conta de que é uma massa de manobra de Edward, mas não, ela aceita e acha o máximo. Acho que esse é o parágrafo perfeito para denunciar o exagero de verbos no imperativo que Edward usa para falar com Bella. É assustador! E mais assustador ainda é quando Bella o obedece ou quando ela se surpreende quando ele lhe dá alternativas, numa vibe tipo "Nossa, eu posso escolher?".

Bicha, se empodere!

E Edward tenta convencê-la de que ela é interessantíssima, fascinante... Mais uma vez: posso saber o porquê? Pelo que pude perceber, na verdade, a pala todinha que ele tem pela Bella é por ela ser cheirosa e apetitosa aos seus sentidos, por não conseguir ter acesso aos seus pensamentos e por ela ser proibida, já que ele é tipo um vegetariano. Por que eu tive essa impressão? Porque na maior parte do tempo o Edward a deprecia, chamando-a de incapaz, de idiota, de burra, irresponsável e coisas do gênero - quando os dois estão juntos, a Bella não abre UMA porta, só para ilustrar a sua incapacidade. E a Bella se incomoda? Não, na verdade ela concorda, convence-se de sua dependência por ele e continua naquela palhaçada de idolatrá-lo toda vez que ele aparece em cena, ressaltando o quanto ele é bonito, o quanto ele a hipnotiza, o quanto ele é isso ou aquilo. Amiga, já ouviu falar em relacionamentos abusivos? Sai dessa!

Agora para não deixar de fora a grande razão de boa parte das pessoas odiarem a saga, devo comentar, claro, sobre o que a senhora Meyer fez com o mito dos vampiros.

Meu contato com o mundo dos vampiros não é lá dos mais íntimos. Para se ter uma ideia, acho que minha história de vampiros favorita é de The Vampire Diaries (da série, porque detestei o livro). Também li Drácula e não fiquei muito empolgada, embora eu não possa afirmar que não tenha gostado do livro. Então a história dos vampiros em si não é exatamente o que eu domine e nem fazia muita questão de toda essa reverencia que as pessoas dizem ter faltado em Crepúsculo, isso realmente não me incomodou. Até porque a autora tinha conhecimento, sim, de como os vampiros eram retratados na literatura; até achei legal aquela coisa de a Bella perguntar ao Edward o que era ou não verdade, daí ele apontar o que era mito ou não. Massa! Só achei que algumas saídas que ela encontrou foram escolhidas não por sua genialidade, mas por ser o caminho mais fácil para não ter que ficar dando voltas.

Por exemplo, sabe-se desde sempre que vampiros não podem andar por aí durante o dia. Não posso afirmar com toda a certeza que foi por causa disso que a Stephenie optou por eles brilharem em vez de morrerem tostados em contato com o Sol, mas a impressão que dá é que ela fez essa escolha só pra não gastar tempo explicando como eles são vampiros e conseguem transitar durante o dia. A cidade ser nublada por boa parte do ano não me parece ser uma saída muito criativa. Não é querendo criar paralelos ou aumentar rivalidades, mas em The Vampire Diaries mesmo, acho a saída bem mais interessante e muito mais verossímil: bruxas que forjam anéis que os permitem andar por aí durante o dia sem virarem churrasquinho. O fato de a preocupação da autora em fazer uma história romântica melosa fez com que ela negligenciasse o mito vampiresco e acabasse optando por explicações fáceis demais, nem tão interessantes, logo, passíveis de críticas.

De toda forma, o que concluí ao finalizar a sua leitura é que eu preferi o filme. O que não significa que o filme seja bom, mas sem dúvida suavizou muitos aspectos que me incomodaram - imagina que filme verdadeiramente desagradável se a Bella caísse a quantidade de vezes que caiu no livro. E fiquei bolada por ter comprado o box em vez dos livros avulsos, porque a regra é: comprou, tem que ler. Quero só ver pra quando jogarei esse martírio.

Bom, dessa forma, o que posso dizer é que Crepúsculo não chegou a ser uma decepção, porque acabou que corresponde exatamente ao que boa parte das pessoas dizem. Eu queria muito que todas essas pessoas estivessem enganadas, mas infelizmente não estão.

E como porta-voz de uma geração, acho que Stephenie Meyer deveria se envergonhar das mensagens que ensinou às meninas que desejaram encontrar Edwards em suas vidas. 

Livro: Crepúsculo
Autora: Stephenie Meyer
Tradução: Ryta Vinagre
Editora: Intrínseca
4ª edição, 2013
Páginas: 288
Nota: 2 de 10







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