"Hoje vai".
Por toda minha vida fui um medroso. Mas isso não fez de mim uma pessoa estagnada, imutável. Meus medos sofriam mudanças na medida em que minhas necessidades e ambições também se modificavam.
Houve um período que tive medo de não ser uma pessoa notável. De ser só mais um. Um inútil. Em um dado momento parecia que esse medo iria se concretizar. Eu não era excelente em nada. Bonzinho, mediano. Excelente não. O meu medo, de toda forma, não era maior que a minha vontade de dormir com a consciência tranquila e o tempo me conformava. Eu havia me convencido de que eu ainda poderia me tornar excelente em algo.
Na medida em que fui crescendo, percebi que eu não precisava ser excelente - ou só me conformei que nunca o seria - e notei que, ainda assim, eu era capaz de me destacar. Eu não era "mais um", eu era "um". Singular e insubstituível. Poderia até não ser de grande importância, mas naquilo que me reconheciam apenas me reconheciam por eu ser eu.
Eis que surgiu um novo medo: o tempo. Ele já não me conformava. Ele estava sempre ali, passando... E me empurrando para um lugar que eu não conhecia. Os "e se" já me tiraram boas noites de sono e, pior ainda, tomaram o lugar dos meus devaneios e me fizeram viver um período de paranoia. E o tempo? Ele simplesmente não se importava, só continuava passando.
"Tudo bem, é isso o que tempo faz: passa". Aprendi, assim, a me apegar a um de seus subgêneros. O agora. Ele era de certa maneira palpável e eu podia manipulá-lo, fosse fazendo escolhas sóbrias para agoras de um futuro imediato ou simplesmente desfrutando os agoras presentes. Infelizmente não trabalhamos sozinhos nesse departamento e o acaso pode destruir qualquer chance que você tiver pra ser feliz. Foi assim que encontrei um novo medo: a fortuna.
Qualquer coisa poderia me acontecer. Eu poderia morrer tragicamente, lentamente ou mais rápido que a luz; havia todo um leque de possibilidades. Eu poderia agonizar e implorar para que a vida se esvaísse de uma vez para findar meu sofrimento ou eu poderia nem mesmo ter a chance de refletir que estaria atravessando aquela linha (nem tão) tênue que separa os vivos dos mortos. Antes todo esse drama se tratasse somente de mim, mas todos que me rodeiam e quem rodeia quem me rodeia estava sujeito a esse mesmo risco. O ponto em questão é que todos passam por tanta coisa para descobrirem o que realmente são e quando alguns de nós parecemos ter força pra mostrar ao mundo o que podemos lhe oferecer, surge uma ameaça de que algo que você não escolheu pode te tirar do jogo e isso me deixou em pânico, sem saber como agir, esse foi um baque que me gerou bastante prejuízo.
Foram horas, dias, meses e até anos meditando acerca disso, até que eu concluí que deveria viver melhor. Sem pensar demais, sem me apegar ao que me fazia mal, sem prolongar o que me paralisava. Era bom. A taxa de vontades diminuiu e as transformei em feitos. Por outro lado, o agora virava antes muito rápido. Eu tive medo outra vez, medo de não permanecer.
De repente eu não tinha mais agoras para suprir, eu queria amanhãs para projetar e ontens mais consistentes para rememorar. O meu pique já não era mais o mesmo e passei a investir em agoras de longa duração, mas como tudo na vida tem um preço, a monotonia me custou bem caro.
O tempo, que um dia me foi simpático, outrora fugaz, neste instante me era cúmplice. Companhia. Eu o usava para pensar, conhecer e relaxar. Fico feliz por termos feito as pazes, pois foi graças a ele que me tornei capaz de não enxergar a morte como uma vilã que tenta me tirar do jogo, mas como uma dama difícil de cortejar. Já perdi a conta de quantos dias que a desejo e ela ainda não me cedeu.
"Mas hoje vai"
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