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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Purgatório

Aqui é escuro. E eu que pensei que a morte era relacionada ao branco... Aliás, isso é racismo? Porque se for, retiro imediatamente o que eu disse, pois se tem um momento que eu temo o inferno, esse momento é agora.
E como esse lugar é apertado. E abafado. Em uma situação normal eu estaria com falta de ar. Tá certo que essa não é uma situação normal, o que não faz muito sentido, considerando que a morte não é novidade pra nenhum ser vivente. De toda forma, até onde eu sei, essa é a primeira vez que morro.
E pra que toda essa demora? Quando será que vai chegar alguém pra me dar uma resposta? Pensei que os serviços eram mais rápidos e os meus braços já estão ficando dormentes... Não, meu corpo inteiro tá dormente! Embora eu acredite que “dormência” não seja bem a palavra.  
Quantos dias eu já estou esperando? Três? Trinta? A minha esperança, muito diferente da vida, não se evapora. O meu esforço em ter sido uma boa pessoa não pode ter sido em vão. A morte não pode ser só isso. Escura. Silenciosa.
Se a eternidade for assim, eu me arrependo terminantemente por ter sido tão sensata quando a minha vontade era de enlouquecer. Direi de boca cheia o quanto me arrependo por ter evitado o conflito, quando o que eu mais quis foi gritar aos quatro ventos todos aqueles palavrões que fingi não terem passado pela minha mente... Ou talvez a eternidade seja assim para todos aqueles que fingiram ser tão bons: ficar deitado em flores e assistir a sua carne ser comida.

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