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segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Paranoia

— E aí ele disse “hã?”.

Rindo mais que o necessário da história não tão interessante de Leonardo, Gabriela abaixou a cabeça para expressar um “que diabo foi isso?” para si e erguê-la assim que tivesse superado a sua falta de controle, que sempre a fez reagir de forma exagerada na frente do rapaz que ela gosta há tanto tempo.

Sorrindo empolgada por ter outro assunto em mente para emendar com o recém-acabado, ela acabou sendo pega de surpresa quando ele estralou a língua e disse em tom de lamento:

— Eu tenho que ir.

“Não!”, sua mente gritou, mas ela quis provar para si que dessa vez teria tudo em mãos e respondeu apressadamente:

— Tudo bem. Tchau. – e ergueu a mão direita, mexendo os dedos, despedindo-se com pressa e certa frieza.

Ao parecer não dar muita importância, Leonardo saiu andando e Gabriela, arrependida por ter sido indiferente na despedida, virou-se repentinamente.

“Caramba, agora ele vai pensar que eu sou uma idi...”.

Mas ela não foi capaz de concluir seu pensamento ao esbarrar em uma figura masculina com os olhos redondos e arregalados, com a pupila constantemente dilatada – mesmo estando sob a claridade do Sol. Sua postura era tensa e seus ombros estavam erguidos, como que se a vida fosse feita de acontecimentos surpreendentes e desagradáveis um atrás do outro.

 De primeiro impacto, Gabriela quis gritar de susto; pensando melhor – ou não pensando de maneira alguma –, ela ficou calada e encarando-o assustada.

— Ora, o que é que foi? Nunca me viu, menina?

— N-não.

— Como “não” se eu estou sempre com você?

— S-s-sempre? – em pânico com a ideia de ter aquela figura bizarra sempre ao seu lado, Gabriela optou por acreditar que logo, logo se daria conta de que estava em um sonho e despertaria.

— É. Eu sou a sua Paranoia.

— Hein?

— Sim. Eu sou o responsável por todo e qualquer pensamento que lhe surge sem motivo algum, como esse de você achar que o Leonardo te acha uma idiota.

— Como você sabe do Leo... Do meu...? Como?

— Eu to te falando: eu sempre to com você. E não é à toa que você anda pensando tantas coisas desnecessárias, se martirizando e deixando de fazer e falar coisas por culpa de julgamentos totalmente errados.

— Se você sempre tá comigo, como que eu nunca o vi antes?

— É que eu sou discreto.

— To vendo...

— E muito inconveniente, se me permite dizer. A minha influência sobre você já tá ficando doentia. Não posso nem dar uma passadinha pra ver como que estão as coisas, que você já começa com uma mania de “fala baixo, que Fulano vai ouvir”, “eu tenho certeza que agora Sicrano pensa assim”. Sério, pra que tudo isso? Sabia que 70% da sua preocupação é inútil?

 — Eu não sei do que você tá falando.

— Olha aí, lá vem você de novo: “se eu não me fizer de desentendida, vai ficar parecendo que ele tem razão”.

— Como você faz isso?!

— É o meu trabalho, apesar de que eu acho que você tá precisando de um pouco de férias de mim. Sua paranoia é quase tão grande quanto a minha.

— Isso não tá sendo legal da sua parte. Agora com licença, que eu vou pra casa.

— Vai lá e fique gastando horas deitada na sua cama, pensando em mil possibilidades de impressões que o Leonardo teve de você hoje. Todas erradas.

— “Todas erradas”? – encucada com essa informação, Gabriela se aproximou de Paranoia e perguntou na intimidade – Então você acha que... Ele, na verdade, não está pensando em mim de jeito nenhum e no fim das contas eu só estou me iludindo?

— Tudo bem, você me convenceu: eu me demito.

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